Recentemente, dois estudos acadêmicos têm gerado debates entre cientistas e autoridades governamentais globalmente ao sugerirem que a difusão dos smartphones pode ter contribuído de forma significativa para a diminuição das taxas de natalidade observadas nas últimas duas décadas.
As investigações, que analisaram informações de mais de 120 países, indicam que essa tendência começou a se intensificar após 2007, ano do lançamento do primeiro modelo do iPhone pela Apple. Os pesquisadores acreditam que essa correlação temporal não é meramente acidental.
A redução nas taxas de fertilidade já havia sido objeto de estudos por especialistas ao longo dos anos, com diversas hipóteses apresentadas, como a crise financeira global de 2008, o aumento no custo de vida, o avanço da educação feminina, o acesso a métodos contraceptivos e transformações culturais. Contudo, nenhum desses fatores isoladamente conseguiu explicar a magnitude global do fenômeno.
O primeiro estudo foi realizado por Caitlin Myers, economista do Middlebury College nos Estados Unidos. Os pesquisadores focaram na introdução inicial do iPhone no país, considerando que até 2011 o dispositivo estava disponível apenas na rede da operadora AT&T.
Os dados coletados permitiram comparar regiões dos EUA com ampla cobertura da operadora àquelas com sinal limitado ou inexistente. Os resultados mostraram que os locais com maior acesso ao iPhone registraram quedas mais significativas nas taxas de nascimento, especialmente entre jovens com idades entre 15 e 24 anos.
Estima-se que os smartphones possam ter sido responsáveis por até 50% da redução das taxas de fertilidade nos Estados Unidos entre 2007 e 2011. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, a queda relacionada ao uso do aparelho variou entre 4,5% e 8%, enquanto para jovens de 20 a 24 anos, essa diminuição ficou entre 3,2% e 6,6%.
Os pesquisadores sugerem que os dispositivos móveis mudaram substancialmente o comportamento social dos jovens. Uma possível explicação é que as interações pessoais estão sendo cada vez mais substituídas por atividades digitais, resultando em menos encontros físicos e relações sexuais, o que leva à diminuição das gestações.
Além disso, os autores mencionam um aumento no consumo de pornografia como um fator potencialmente relacionado. O fácil acesso a conteúdos adultos pode ter se tornado uma alternativa para as relações presenciais. Outra hipótese levantada é que os smartphones melhoraram o acesso à informação sobre contracepção e aborto.
Os estudos também correlacionam o aumento na utilização dos aparelhos à diminuição do tempo gasto com amigos presencialmente. Paralelamente, há evidências de uma queda nas atividades sexuais entre os jovens durante o mesmo período em que o uso de smartphones cresceu exponencialmente.
O segundo estudo foi realizado pelos economistas Nathan Hudson e Hernan Moscoso Boedo da Universidade de Cincinnati. Esta pesquisa expandiu a análise para um contexto internacional utilizando dados do Banco Mundial sobre a penetração de smartphones e as taxas de fertilidade em 128 países.
Os pesquisadores constataram que a desaceleração no número de nascimentos ocorreu exatamente quando os smartphones começaram a ser amplamente adotados. Essa tendência foi identificada em nações com diferentes contextos econômicos e sociais, incluindo Irã, México, Turquia, Chile, Costa Rica e Guatemala.
Para os autores do estudo, a semelhança temporal observada em várias partes do mundo sugere um “choque tecnológico global”. Eles acreditam ser improvável que fatores regionais isolados como sistemas de saúde ou tradições religiosas tenham gerado mudanças tão homogêneas em intervalos tão curtos.
Nos Estados Unidos, o segundo estudo também explorou o crescimento da internet banda larga e das redes móveis 4G. As conclusões apontaram que áreas com acesso mais veloz à internet apresentaram quedas mais acentuadas nas taxas de natalidade entre adolescentes.
Apesar das evidências apontadas pelos estudos, os autores ressaltam que os smartphones não devem ser considerados como a única causa para essa questão complexa. Eles enfatizam que a diminuição da fertilidade resulta de uma combinação diversificada de transformações sociais, culturais e econômicas ocorridas nas últimas décadas.
A preocupação com as baixas taxas de natalidade se intensifica em diversos países ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças revelou que as taxas de fertilidade atingiram níveis historicamente baixos.
Na Ásia, países como Japão, Coreia do Sul e China enfrentam desafios significativos relacionados ao envelhecimento populacional. O governo chinês revogou sua política do filho único em 2016; enquanto isso, Japão e Coreia do Sul implementaram políticas para estimular a natalidade com resultados limitados até agora.
Esse fenômeno também se estende por nações de renda média como Brasil e Índia, onde tem ocorrido uma rápida queda no número médio de filhos por mulher. Em contrapartida, países menos desenvolvidos da África Subsaariana continuam apresentando altas taxas de natalidade.
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O post Pesquisadores ligam smartphones à queda histórica da natalidade em vários países apareceu primeiro em Portal Correio – Notícias da Paraíba e do Brasil.
