Comandante brasileira compartilha experiência impactante de resgate na Venezuela

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(Ricardo Arduengo/Reuters – 01.07.2026)

No final de junho, a Venezuela foi devastada por dois terremotos que resultaram em mais de 3.600 fatalidades e deixaram mais de 16 mil feridos, criando um cenário de destruição em larga escala nas regiões afetadas.

A situação humanitária se tornou ainda mais crítica, levando diversos países a enviarem equipes para auxiliar na busca por sobreviventes e colaborar com a reabilitação das áreas atingidas.

Até agora, o Brasil mobilizou uma equipe de 72 bombeiros para a operação no país, sob o comando da major Daniela Santos Oliveira, do Corpo de Bombeiros de São Paulo. Ela é a primeira mulher a liderar uma missão humanitária internacional pelo estado.

A experiência de Daniela inclui operações em desastres anteriores, como os terremotos na Turquia em 2023, o colapso da barragem em Brumadinho em 2019 e as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024.

Ela destacou que sua vivência em missões passadas tem sido fundamental para o progresso das atividades na Venezuela: “Reproduzimos tudo que deu certo antes e ajustamos o que não funcionou”, afirmou.

“Estamos agora em um nível de treinamento e autossuficiência que foi aprimorado pelas experiências anteriores”, complementou.

Desafios enfrentados

De acordo com Daniela, os principais desafios enfrentados pela equipe incluem o cansaço devido ao calor intenso e as tarefas exigentes, como o rompimento de lajes durante as operações.

“Às vezes encontramos lajes que precisam ser removidas com técnicas específicas. Com as altas temperaturas, é crucial garantir hidratação adequada e um melhor rodízio entre os membros da equipe”, explicou.

Para lidar com a fadiga dos profissionais, os bombeiros brasileiros foram organizados em cinco grupos distintos.

As jornadas variam entre seis e oito horas, dependendo das condições encontradas, sempre com um revezamento planejado para manter suporte logístico na base.

“É essencial que a base esteja sempre ativa. Temos toda a parte administrativa e logística garantindo apoio contínuo”, ressaltou a bombeira. “Costumamos dizer: ‘sem logística, não se vence a guerra’.”

Outro aspecto importante é cuidar do bem-estar dos cães envolvidos na missão. Segundo Daniela, esses animais desempenham um papel crucial nas operações de resgate e devem ser utilizados nos momentos adequados para maximizar seus resultados.

Saúde mental dos profissionais

Diante da devastação, do aumento constante do número de vítimas e das dificuldades enfrentadas ao longo da missão, Daniela enfatiza que a saúde mental dos bombeiros é vital para o sucesso dos trabalhos.

“Conversamos muito sobre aceitar que nem sempre conseguimos o nosso objetivo principal de resgatar vidas. Contudo, sabemos que proporcionamos algum conforto às famílias”, destacou. “Nos locais onde atuamos, mesmo quando recuperamos corpos, as famílias expressam gratidão pela finalização desse processo.”

O trabalho dos bombeiros vai além do resgate físico; eles também oferecem suporte emocional às vítimas durante as operações.

Segundo Daniela, manter contato constante com uma vítima em situações críticas é um fator determinante para sua sobrevivência.

“É essencial mantê-los engajados em conversas sobre outros assuntos e mostrar que estamos ali por eles e não iremos desistir”, contou. “Esse vínculo ajuda a evitar que eles desistam também.”

Colaboração internacional

Além do Brasil, cerca de 30 países enviaram equipes à Venezuela para colaborar nos esforços de resgate e reconstrução. Atualmente, há mais de 65 equipes atuando no país.

Com tantas nações envolvidas nas operações, Daniela ressalta a importância da padronização nas técnicas e na comunicação entre as equipes para garantir uma atuação harmoniosa e eficaz.

Essa padronização é assegurada pelo Insarag (Grupo Consultivo Internacional de Busca e Resgate), uma rede global estabelecida pela ONU (Organização das Nações Unidas) para garantir uniformidade nas práticas adotadas.

“Realizamos marcações uniformes para compreendermos tecnicamente as ações uns dos outros e assim complementarmos nossos esforços. Às vezes disponibilizamos cães ou equipamentos para apoiar outras equipes que chegam com necessidades específicas. Tudo isso ocorre sob coordenação”, explicou. “Existem padrões a serem seguidos.”

Os equipamentos e materiais utilizados são padronizados mundialmente para garantir a autossuficiência das equipes envolvidas. “Se não formos autossuficientes, seria melhor não enviarmos ninguém, pois isso gera mais complicações”, conclui a major Daniela.

Sensação de medo

Nas ruas da Venezuela, o medo é palpável entre os moradores. Daniela observou que a população está “profundamente abalada” devido ao fato de muitos não terem vivido outra experiência semelhante antes dessa catástrofe.

O último grande terremoto registrado no país ocorreu há mais de um século atrás, em 29 de outubro de 1900, com magnitude 7,7 sendo considerado o mais forte já registrado na história venezuelana.

“Esse temor não é algo recorrente entre eles”, acrescentou.

O governo venezuelano está monitorando eventuais réplicas sísmicas e enviando alertas aos celulares da população. Conforme mencionado por Daniela, já ocorreram mais de 700 tremores até agora; embora muitos tenham sido imperceptíveis devido à sua profundidade. No entanto, sempre que um alerta é enviado à população “eles ficam extremamente apavorados”.

Entre os membros da equipe brasileira, Daniela acredita que sentir medo é crucial para prevenir situações perigosas relacionadas a novas réplicas ou acidentes dentro do grupo. “O medo nos mantém vigilantes diante de potenciais riscos. Se alguém diz: ‘não tenho medo’, isso é preocupante; é nesse momento que reside o perigo.”

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