Um político e seu parceiro celebram o nascimento de seu filho, concebido por meio de uma barriga de aluguel. O detalhe controverso? Ele ocupava a liderança do grupo parlamentar da democracia cristã em um país onde essa prática é proibida. Curiosamente, esse político havia se empenhado para manter essa proibição, mesmo enquanto a gestação estava em andamento.
Jens Spahn, figura central no governo de Friedrich Merz, renunciou no último fim de semana, provocando uma crise política e reacendendo o debate sobre reprodução na Alemanha.
Em sua carta comunicando a saída aos membros da União, que reúne a CDU de Merz e a CSU da Baviera, Spahn escreveu: “Percebi que minha busca pela felicidade pessoal — formar uma família com meu marido e me tornar pai — não é compatível com meu cargo político”.
O primeiro-ministro expressou nas redes sociais que considerava a decisão “correta e inevitável”, ressaltando que “a credibilidade é o bem mais precioso na política”. Apenas dias antes, ele havia parabenizado Spahn pelo nascimento do bebê, sem saber da polêmica que estava por vir.
Spahn, aos 46 anos, um conservador rigoroso com influência na coalizão governamental estabelecida por Merz no ano anterior, tentou justificar sua escolha em uma entrevista ao tabloide Bild. Ele revelou ter enfrentado um conflito interno “por muito tempo, inclusive sobre a questão da barriga de aluguel”.
Entretanto, suas tentativas falharam. Enquanto alguns colegas pediam sua renúncia, tanto a oposição quanto a mídia lembravam que a CDU havia votado contra uma proposta de revisão da legislação alemã em fevereiro para permitir a barriga de aluguel altruísta, similar ao que acontece no Brasil. Além disso, como ministro da Saúde em 2020, Spahn já havia se mostrado contrário à discussão sobre flexibilizar essa proibição.
Uma declaração feita por ele em 2015 foi resgatada: “Como homem gay e cristão, tenho dificuldades pessoais em aceitar a ideia de barriga de aluguel. Aceitar que não serei pai de forma natural exige uma grande dose de humildade. Não sei se sou capaz disso.”
Uma legislação vigente desde 1990 proíbe essa prática na Alemanha; no entanto, muitos casais recorrem a outros países para realizar seus desejos familiares. Assim como muitos cidadãos alemães, Spahn e seu marido optaram pelos Estados Unidos para conceber seu primeiro filho. Críticos observaram que suas ações se assemelham às do bilionário Peter Thiel, fundador do PayPal e Palantir, conhecido por promover palestras sobre temas controversos e também pai de duas filhas geradas por barriga de aluguel.
“Qualquer pessoa que defenda regras políticas precisa ser capaz de justificar claramente por que essas normas aparentemente não se aplicam a ela”, declarou Janosch Dahmen, porta-voz dos Verdes no Bundestag (Parlamento alemão). Após o estrago causado pela situação, Merz comentou em uma entrevista à TV pública que aproveitaria este episódio para reestruturar forças dentro da CDU e não descartou possíveis mudanças em seu gabinete com os sociais-democratas do SPD.
A urgência demonstrada pelo primeiro-ministro também se relaciona ao atual cenário eleitoral na Alemanha. Em setembro próximo, o partido ultradireitista AfD está posicionado para conquistar vitórias nas eleições em dois estados.
As pesquisas indicam uma forte possibilidade da AfD obter uma bancada significativa em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e até formar um governo inédito na Saxônia-Anhalt. Isso poderia intensificar consideravelmente a pressão política sobre Merz no nível federal, especialmente diante dos baixos índices de popularidade que seu governo enfrenta atualmente.
A falta de coerência — algo característico tanto da AfD quanto de muitos populistas europeus — não é uma alternativa viável para Merz, conforme evidenciado pelo episódio envolvendo seu ex-líder parlamentar.
Enquanto as discussões sobre quem sucederá Spahn continuam entre o primeiro-ministro e seus aliados partidários, o debate sobre barriga de aluguel ressurge na Alemanha após décadas sendo evitado. Este tema delicado abrange questões desde bioética até religião e sexualidade.
Frauke Brosius-Gersdorf, jurista cuja indicação à mais alta corte do país foi barrada pela CDU devido à sua postura libertária e suposta defesa do aborto, afirmou em entrevista ao jornal Die Zeit que a proibição da barriga de aluguel contraria a Lei Fundamental (Constituição), que prioriza a autodeterminação.
“É lamentável que o sr. Spahn não tenha aproveitado sua experiência pessoal para retomar o debate sobre barriga de aluguel na Alemanha. Com isso, ele poderia proporcionar oportunidades semelhantes às que teve no exterior para muitas pessoas”, concluiu Brosius-Gersdorf.
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O post Escândalo com barriga de aluguel derruba líder de partido cristão na Alemanha apareceu primeiro em Portal Correio – Notícias da Paraíba e do Brasil.
